3 generais que planejaram a queda de Getúlio Vargas antes de 1964

Quando se fala em ditadura militar no Brasil, a maioria das pessoas pensa imediatamente em 1964. Mas a articulação de golpes militares contra governos civis – especialmente contra Getúlio Vargas – começa bem antes. O Golpe de 1945, que derrubou Vargas e pôs fim ao Estado Novo, é um marco dessa tradição de intervenção política das Forças Armadas.[2][4]

Nesse contexto, três generais se destacam como articuladores centrais: Góes Monteiro, Eurico Gaspar Dutra e Oswaldo Cordeiro de Farias.[2][5] Eles ajudaram a derrubar Getúlio em 1945 e, anos depois, teriam influência direta ou indireta no ambiente político que desembocaria no golpe de 1964.

Contexto: do Estado Novo ao golpe de 1945

Getúlio Vargas chegou ao poder em 1930, após a chamada Revolução de 1930, e consolidou sua liderança com grande apoio de setores militares.[3][9] Em 1937, apoiado por parte do Exército e com o pretexto de conter uma suposta ameaça comunista (Plano Cohen), ele deu um golpe de Estado, fechou o Congresso e instaurou o Estado Novo, uma ditadura de caráter autoritário e centralizador.[3][8][9]

Durante o Estado Novo, Vargas governou com forte intervenção do Estado na economia, promoveu a industrialização e criou empresas estratégicas como a Companhia Siderúrgica Nacional (CSN) e a Vale do Rio Doce, o que reforçou seu perfil de líder nacionalista.[1][3] Ao mesmo tempo, reprimiu movimentos de esquerda e de direita, controlou a imprensa e concentrou poderes nas mãos do Executivo.[3][8]

Com o fim da Segunda Guerra Mundial e a derrota das potências fascistas, cresceu a pressão interna e externa pela democratização do Brasil. Em 1945, Vargas iniciou medidas de abertura: anistia, legalização de partidos e convocação de eleições gerais.[2][3][8] Ainda assim, setores da alta cúpula militar passaram a temer que o presidente tentasse perpetuar-se no poder.[2][4]

É nesse cenário que se articula o golpe de 29 de outubro de 1945, liderado por generais influentes do Exército e apoiado por aliados civis.[2][4][7]

1. General Góes Monteiro: o estrategista do Exército

O general Pedro Aurélio de Góes Monteiro foi uma das figuras mais influentes das Forças Armadas brasileiras na primeira metade do século XX. Ele participou da articulação da Revolução de 1930, apoiou Vargas na consolidação do poder e mais tarde se tornaria um dos principais arquitetos de sua queda.[2][5]

Em 1945, Góes Monteiro ocupava o cargo de ministro da Guerra (equivalente ao chefe do Exército). De acordo com relatos históricos, ele esteve no centro da conspiração contra Getúlio, mobilizando oficiais e unidades militares no Rio de Janeiro para forçar a renúncia do presidente.[2][5]

Fontes apontam que, no fim de outubro de 1945, Góes iniciou a movimentação de tropas no então Distrito Federal (Rio de Janeiro), o que culminou no cerco ao Palácio Guanabara e na deposição de Vargas no dia 29.[2][5] Em alguns relatos, ele aparece como o verdadeiro chefe do movimento, ainda que nem sempre estivesse na linha de frente da negociação com o presidente.[5][6]

Além de 1945, Góes Monteiro teve papel importante na construção de uma doutrina de tutela militar sobre a política: a ideia de que as Forças Armadas seriam uma espécie de “poder moderador” com autoridade para intervir para “corrigir rumos” do regime. Essa mentalidade ajudou a preparar o terreno para o golpe de 1964, mesmo após sua saída da cena central.[2][4]

2. General Eurico Gaspar Dutra: do Ministério da Guerra à Presidência

O general Eurico Gaspar Dutra foi ministro da Guerra de Vargas entre 1936 e 1945 e um dos pilares do regime do Estado Novo.[1][9] Ele ajudou a organizar o aparato repressivo contra a oposição e consolidou sua imagem como oficial disciplinado, conservador e alinhado aos interesses de setores tradicionais das Forças Armadas.

Durante a Segunda Guerra Mundial, Dutra comandou a atuação do Exército brasileiro, inclusive a formação da Força Expedicionária Brasileira (FEB), que lutou ao lado dos Aliados na Europa.[5][8] Essa participação reforçou a aproximação do Brasil com os Estados Unidos e acentuou a influência norte-americana sobre oficiais brasileiros.[1][3][8]

Nos meses que antecederam o golpe de 1945, Dutra se aproximou da ala militar e civil que desejava uma transição controlada, sem permitir que Vargas conduzisse o processo de democratização em seus próprios termos.[1][2] Mesmo tendo deixado o Ministério da Guerra pouco antes da deposição – sendo substituído por Góes Monteiro – ele continuou a ser uma referência política e militar dentro do Exército.[2][5]

Após a queda de Getúlio, Dutra se lançou candidato à Presidência e foi eleito nas eleições de dezembro de 1945, como representante de uma “redemocratização tutelada” pelos militares.[2][4] Seu governo (1946–1951) marcou a transição do Estado Novo para a Quarta República, mas manteve forte influência das Forças Armadas na política e alinhamento estreito com os EUA.[4]

Essa trajetória faz de Dutra um elo importante entre dois momentos: o golpe que derruba Vargas em 1945 e o ambiente institucional que, décadas depois, facilitaria a articulação do golpe de 1964.

3. General Oswaldo Cordeiro de Farias: o executor do golpe

Menos conhecido do grande público, o general Oswaldo Cordeiro de Farias teve papel decisivo como executor direto do golpe de 1945.[5][6]

No dia 29 de outubro, Cordeiro de Farias foi incumbido por Góes Monteiro de comunicar a Vargas que as Forças Armadas haviam assumido o controle da situação.[5] Ele foi ao Palácio Guanabara, acompanhado do então ministro da Justiça Agamenon Magalhães, para informar ao presidente que as três Armas – Exército, Marinha e Aeronáutica – estavam unidas na exigência de sua saída.[5][6]

Relatos do episódio mostram que o palácio estava cercado por tropas, inclusive a guarda palaciana havia aderido ao movimento. Cordeiro transmitiu um “apelo ao patriotismo” para que Vargas renunciasse, sob a ameaça velada de uma ação militar aberta.[5][6]

Vargas respondeu afirmando que preferiria resistir, mas, diante do que chamou de “golpe branco”, declarou que não seria “elemento de perturbação” e aceitou deixar o poder.[5][6] Segundo registros, ele pediu apenas prazo para retirar seus pertences, enquanto os militares chegaram a cortar água, luz e gás do palácio, transformando a cena em algo descrito como uma “ação de despejo”.[6]

Cordeiro de Farias continuaria com carreira destacada na vida militar e, mais tarde, faria parte do grupo de generais que defendiam uma linha dura de intervenção política, influenciando gerações de oficiais que atuariam em 1964.

Um “ensaio geral” para 1964?

Historiadores costumam ver o golpe de 1945 como um tipo de “ensaio geral” para o que viria em 1964. Em ambos os casos, grupos de generais alegaram defender a Constituição, a democracia e combater supostas ameaças autoritárias ou comunistas, enquanto na prática derrubavam um governo civil por meio de pressão militar.[2][4][7]

Alguns paralelos importantes:

  • Papel central da alta cúpula militar: em 1945, Góes Monteiro, Dutra e Cordeiro de Farias; em 1964, Castelo Branco, Costa e Silva, entre outros.[2][4]
  • Discurso de “salvação nacional”: em 1945, a justificativa era impedir que Vargas prolongasse o Estado Novo; em 1964, evitaria-se uma suposta “república sindicalista” ou ameaça comunista.[2][4][8]
  • Apoio (explícito ou tácito) dos EUA: no contexto da Guerra Fria, esse fator ficou ainda mais evidente em 1964, mas já aparecia nas pressões pela derrubada de Vargas, especialmente devido ao seu nacionalismo econômico.[1][3][8]
  • Transição controlada: em 1945, a eleição de Dutra representou uma redemocratização limitada; em 1964, instalou-se um regime militar direto, sem previsão imediata de retorno ao poder civil.[4][7]

Assim, os três generais ligados ao golpe de 1945 ajudaram a consolidar uma cultura de intervenção militar na política brasileira, que reapareceria com ainda mais força a partir de 1964.

Por que entender esses generais é importante hoje?

Estudar as trajetórias de Góes Monteiro, Eurico Gaspar Dutra e Oswaldo Cordeiro de Farias vai além de conhecer nomes de generais do passado. Eles personificam uma visão de Forças Armadas como árbitro supremo da política nacional – ideia que atravessou o século XX e ainda aparece em debates contemporâneos.[2][7][8]

Compreender o golpe de 1945 e sua articulação militar ajuda a:

  • Entender a queda de Getúlio Vargas em seu primeiro ciclo de poder.
  • Perceber a continuidade entre diferentes golpes e intervenções ao longo da História da República.
  • Reconhecer como narrativas de “ordem”, “patriotismo” e “defesa da democracia” podem ser usadas para legitimar rupturas institucionais.

Ao olhar para esses três generais e para o golpe de 1945, fica mais claro que a ditadura de 1964 não surgiu do nada: ela foi precedida por décadas de ensaios, doutrinas e intervenções, nas quais as Forças Armadas se acostumaram a atuar como protagonistas do jogo político.