A participação da UDN e de outros partidos no golpe de 1945 que derrubou o Estado Novo
O chamado Golpe de 29 de outubro de 1945 marcou o fim da ditadura do Estado Novo de Getúlio Vargas e abriu caminho para a redemocratização do Brasil. Embora a deposição tenha sido formalmente conduzida por setores das Forças Armadas, partidos como a UDN (União Democrática Nacional) e outras siglas recém-criadas tiveram papel decisivo na articulação política e na pressão pela queda do regime, em sintonia com o clima internacional do pós-Segunda Guerra Mundial. Para compreender melhor esse processo, vale analisar como esses partidos se organizaram, quais eram seus interesses e de que forma convergiram com o movimento militar.
CTA: Continue a leitura para entender como a UDN e outros partidos transformaram a crise do Estado Novo em oportunidade para a redemocratização.
Contexto: Estado Novo, Guerra Mundial e crise do regime
O Estado Novo foi instaurado por Getúlio Vargas em 10 de novembro de 1937, por meio de um golpe de Estado que fechou o Congresso, suspendeu liberdades políticas e concentrou poderes no Executivo. A nova Constituição de 1937, conhecida como Polaca, inspirada em modelos autoritários europeus, consolidou a ditadura com forte censura, propaganda oficial (via DIP) e repressão aos opositores.
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Com o avanço da Segunda Guerra Mundial, o Brasil se alinhou aos Aliados, declarou guerra à Alemanha nazista e à Itália fascista em 1942 e enviou a Força Expedicionária Brasileira (FEB) à Europa. Essa participação gerou uma grande contradição: o país lutava contra ditaduras no exterior enquanto mantinha uma ditadura interna. Esse contraste fortaleceu setores civis e militares que passaram a exigir a redemocratização.
CTA: Reflita sobre como o contexto internacional pode acelerar mudanças políticas internas – um ponto-chave para compreender 1945.
O surgimento dos partidos na reta final do Estado Novo
A partir de 1943–1944, a pressão pela abertura política cresceu, tanto dentro das Forças Armadas quanto entre intelectuais, elites urbanas e movimentos oposicionistas. Para tentar controlar a transição, o próprio governo Vargas autorizou a reorganização partidária e marcou eleições gerais para dezembro de 1945, permitindo o surgimento de novas siglas.
CTA: Observe como regimes autoritários, ao tentar controlar a abertura, muitas vezes criam espaço para forças que vão acelerar sua queda.
Nesse cenário, destacam-se três grandes partidos nacionais:
- PSD (Partido Social Democrático): ligado a interventores e elites estaduais associadas ao varguismo, mas já adaptado ao jogo eleitoral.
- PTB (Partido Trabalhista Brasileiro): inspirado na base sindical estruturada durante o Estado Novo, próximo a Vargas e aos trabalhadores urbanos.
- UDN (União Democrática Nacional): aglutinou opositores liberais, setores da classe média urbana, parte da elite econômica e intelectuais críticos ao varguismo.
Esses partidos não apenas se prepararam para disputar as eleições, mas também passaram a atuar como atores centrais na pressão pela saída imediata de Vargas, em sintonia com a ala antigetulista das Forças Armadas.
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A UDN: oposição liberal e articulação contra Vargas
A UDN nasceu como o principal partido de oposição civil organizada ao varguismo. Reuniu antigos políticos da República Velha, liberais urbanos, segmentos empresariais e figuras que defendiam um projeto de democracia representativa com forte ênfase no combate ao personalismo de Vargas.
CTA: Analise a formação da UDN para entender por que ela se tornou o polo da oposição liberal no Brasil do pós-guerra.
Na narrativa de diversos udenistas, o Estado Novo era visto como um “período ditatorial vergonhoso”, expressão próxima à usada anos depois por senadores udenistas ao revisitar o regime. Para esse grupo, a derrubada de Vargas em 1945 não era apenas uma troca de governo, mas uma ruptura necessária com o autoritarismo e com o sistema de poder construído desde 1930.
CTA: Pense em como a memória do Estado Novo foi usada politicamente pela UDN para legitimar seu protagonismo na redemocratização.
Na prática, a UDN atuou em três frentes principais:
- Discurso público: imprensa, manifestos e comícios denunciando o caráter ditatorial do Estado Novo e cobrando eleições livres.
- Alinhamento com setores militares: diálogo com oficiais que rejeitavam a permanência de Vargas após a guerra e temiam uma “manobra continuísta”.
- Pressão institucional: uso da reabertura política parcial (registro de partidos, calendário eleitoral) para dar legitimidade civil à ideia de que o ciclo varguista precisava se encerrar imediatamente.
CTA: Ao estudar a UDN, observe como partidos civis podem funcionar como “porta-voz” de insatisfações militares em momentos de crise política.
Outros partidos e seus interesses no fim do Estado Novo
Embora a UDN seja frequentemente destacada, outros partidos também tiveram papel relevante na conjuntura que levou ao golpe de 1945.
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O PSD, formado em grande parte por interventores e líderes regionais ligados ao próprio Vargas, defendia uma transição controlada, com eleições e nova Constituição, mas sem ruptura brusca. Muitos dos seus quadros estavam comprometidos com a estrutura política e administrativa montada durante o Estado Novo, embora aceitassem o fim formal da ditadura.
O PTB, por sua vez, representava a tentativa de Vargas de organizar sua base trabalhista dentro da nova ordem democrática, canalizando o apoio dos trabalhadores urbanos que haviam sido beneficiados por leis trabalhistas e políticas sociais na Era Vargas. Para o PTB, interessava:
- garantir que a queda do Estado Novo não significasse o fim da agenda social varguista;
- preservar a imagem de Vargas como “pai dos pobres”, mesmo com sua saída do poder;
- atuar nas eleições de 1945 como herdeiro político do varguismo no campo democrático.
CTA: Observe como PSD e PTB buscaram se adaptar: um como continuidade moderada do aparelho de Estado, outro como continuidade do legado social de Vargas.
O golpe de 29 de outubro de 1945: convergência entre militares e civis
O estopim imediato para a deposição de Vargas foi um conjunto de temores de prolongamento do poder varguista. A nomeação de Benjamim Vargas, irmão do presidente, para chefiar a polícia do Rio de Janeiro foi interpretada em setores militares como um sinal de que o governo poderia preparar um movimento para permanecer no poder, mesmo com eleições marcadas.
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No dia 29 de outubro de 1945, uma conspiração militar liderada por generais como Góes Monteiro e Oswaldo Cordeiro de Farias cercou o Palácio Guanabara e exigiu a renúncia de Vargas, sob a justificativa de preservar a ordem e garantir a realização das eleições. Vargas acabou deposto e substituído interinamente pelo presidente do Supremo Tribunal Federal, José Linhares, que ficou no cargo até a posse do presidente eleito, Eurico Gaspar Dutra, em janeiro de 1946.
CTA: Investigue a cronologia de 29 de outubro de 1945 para entender como golpes de poucas horas podem redefinir décadas de história política.
Embora a execução do golpe tenha sido militar, sua legitimação política foi fortemente apoiada por partidos como a UDN, além de setores do PSD. O discurso udenista de “restauração da democracia” e “renegação do Estado Novo” casou-se com a justificativa das Forças Armadas de que a deposição de Vargas era necessária para garantir a transição democrática.
CTA: Reflita sobre como a linguagem da “defesa da democracia” pode ser usada tanto para justificar aberturas quanto para legitimar ações de força.
A redemocratização e a Quarta República
Com o fim do Estado Novo, o Brasil iniciou o período conhecido como Quarta República ou República Populista, inaugurado com a Constituição de 1946. As eleições de 2 de dezembro de 1945 levaram ao poder o general Eurico Gaspar Dutra, apoiado principalmente pelos partidos PSD e PTB, enquanto a UDN se consolidou como principal força de oposição parlamentar.
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A UDN manteve sua postura antivarguista ao longo de toda a Quarta República, chegando a ser um dos vetores civis da crise que culminaria, anos depois, no golpe de 1964. Já o PTB e parte do PSD continuaram vinculados ao legado de Vargas, que voltaria à presidência pelo voto em 1951 e se suicidaria em 1954 em meio à intensa oposição udenista.
CTA: Ao estudar o golpe de 1945, faça a ponte com 1954 e 1964 para perceber como certos conflitos políticos no Brasil são de longa duração.
Por que falar em “golpe” de 1945?
Na historiografia, há relativo consenso em tratar a queda de Vargas em 1945 como um golpe de Estado, ainda que ele tenha aberto caminho para eleições e uma nova Constituição. O termo se justifica porque:
- a deposição foi conduzida por forças militares que cercaram o chefe de governo e o forçaram a renunciar;
- Vargas ainda era formalmente o presidente e havia convocado eleições, ou seja, não se tratou apenas de uma sucessão institucional rotineira;
- a decisão não passou por nenhum mecanismo de controle ou julgamento previsto na ordem jurídica do próprio Estado Novo.
CTA: Compare o golpe de 1945 com outros golpes brasileiros (1930, 1937, 1964) para entender continuidades e diferenças na lógica das rupturas institucionais.
Nesse sentido, o papel da UDN e de outros partidos foi o de dar base civil, discurso democrático e projeto de poder a um movimento que, na prática, foi desencadeado por decisão de cúpulas militares. A articulação entre esses atores é o que explica por que 1945 é ao mesmo tempo um golpe e o marco da redemocratização brasileira.
CTA: Use essa ambiguidade – golpe e redemocratização – como chave de leitura para analisar o final de regimes autoritários em diferentes países.
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